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Tragédia em Teresópolis era previsível
10/04/2012 | O Globo

Editorial publicado no jornal O Globo sobre a repetição dos desabamentos em Teresópolis, RJ, com mortos, feridos e desabrigados. O texto critica o atraso nas providências do governo deste a tragédia de 2011.

Mais do que anunciado, o novo desastre em Teresópolis, provocado por um temporal que matou cinco pessoas e deixou uma centena de desabrigados, foi precedido de seguidas advertências na imprensa de que a leniência do poder público em relação a providências a serem tomadas na Região Serrana fluminense após a enchente do início de 2011 estaria pavimentando o caminho para outros desastres.

Um ano e três meses após os problemas provocados pelo maior desastre natural da história do Brasil, constata-se o tamanho da omissão. Pouca coisa foi feita para mudar um quadro crítico, em que se misturam a inércia das autoridades em relação à permanência de moradores em áreas de alto risco (um problema crônico, de décadas, misto de inapetência de governos com programas de remoção e demagogia de grupos políticos mais interessados em votos do que na segurança da população) e o descaso com programas de prevenção anunciados.

Isso sem contar outros males advindos de uma enxurrada em que morreram 900 pessoas em sete municípios – como o oportunismo de autoridades e maus empresários que formaram uma rede de corrupção responsável por desviar para contas particulares verbas públicas destinadas à ajuda às famílias atingidas e à reconstrução das áreas destruídas pelas chuvas naquela ocasião. Por fim, a repetição de falhas no sistema de prevenção local, como os alarmes da prefeitura de Teresópolis, que falharam.

A enxurrada de denúncias que começou a se avolumar na Serra, baixadas as águas de 2011, parece longe de ser equacionada. Somente em Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo, três dos municípios mais afetados pela enchente de um ano e três meses atrás, estima-se que 42 mil pessoas vivam em áreas de risco, incluindo favelas e bairros de classe média. Deste total, 10 mil estão em regiões da cidade atingidas pelo temporal do final de semana. A maioria das casas foi construída em encostas, em trechos de passagem de água das chuvas. Não é difícil estabelecer uma relação direta entre o nível dessa ocupação desordenada e a erosão do solo, receita quase infalível para tragédias como a que acabou acontecendo novamente.

O governo do estado admite que encontra dificuldades na implementação dos programas de reassentamento de famílias, não só as atingidas pela enchente de 2011, mas outras que moram nas áreas de risco mapeadas – em Teresópolis e nos demais municípios serranos. Quanto ao problema conexo da corrupção que drenou recursos públicos para bolsos privados é ao menos louvável que alguns dos responsáveis tenham sido identificados e, até certo ponto, punidos, com agentes públicos (prefeitos e secretários) afastados dos cargos, sem prejuízo de processos na Justiça. Espera-se que sirva de antídoto contra novas tentativas de avançar sobre recursos que venham a ser alocados.

Repetiram-se erros, manteve-se um quadro de omissão do poder público com suas obrigações e ignoraram-se advertências de que estavam sendo criadas condições para a repetição de tragédias na Serra. A conta veio como o previsto, na forma de mortes, famílias desabrigadas e prejuízos generalizados. E continuará assim, infelizmente tudo indica.

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